Caminho Histórico da Espiritualidade

 

Pe. Lui Eugênio  

 

I – A palavra espiritualidade é entendida por muitos como filha da modernidade. Ela remonta, no máximo, ao século XVII, e precisamente à escola espiritual francesa. As outras líguas a teriam adotado aos poucos, com exceção da língua alemã, que sempre preferiu o termo “piedade” (Frommigkeit) e só mais tarde, o termo “Spiritualitat”.

                Na verdade, porém, a palavra, em forma abstrata remonta à época patrística, uma vez que ela se encontra num texto atribuído a São Jerônimo ou a Pelágio, seu contemporâneo (420, século V). a frase latina diz: “Age, ut in spiritaulite proficias” (Comporta-te do modo que progridas na espiritualidade), querendo dizer com essa expressão, o conceito de espiritualidade como: “vida segundo o Espírito de Deus e como progressão aberta a ulteriores realizações, segundo a graça do BATISMO.

                Um século mais tarde, Dionísio, o menor, traduzindo o tratado: “dacriação do homem”, de Gregório de Nissa, exprime o termo grego “pneumatiké”, com o termo latino “Spiritualitas” explicando-a da seguinte forma: “Consiste na perfeição da vida segundo Deus”. Não obstante terem aparecido outras expressões como: “Oração pura, pureza de coração, teoria, contemplação, mística, etc”. permanecendo até hoje com este sentido: “Perfeição da vida segundo Deus”.

                Entre os tratadistas  clássicos, sobressai Dionísio, o Aeropagita, (século V) com sua “Mystica theogica”. Do Século IX ao século XI, esta palavra “Spiritualitas” é sempre designada como sendo uma realidade  e uma atividade que provém não da natureza, mas da graça do Espírito Santo, presente no homem. Podemos dizer, que termos mais nossos do que medievais, que se está designando uma “vida espiritual sobrenatural”.                A partir do Século XII, as línguas vernáculas empregaram o termo: “Spiritulité (francês); La vita spirituale (italiano); espiritualidad (espanhol) no sentido de “espiritual”, isto é, “Orientando o homem que queira se tornar espiritual, isto é: semelhante a Deus, fonte da espiritualidade. São Francisco de Sales afirmava que “espiritualidade”, é o relacionamento afetivo com Deus, experiência vivida  que implica os múltiplos estágios interiores, como ascese, a mística, o desenvolvimento dos dons do Espírito Santo, a direção espiritual, etc.

 

Ultimamente, de modo particular no século XX, introduziu-se também o uso no plural do termo espiritualidade, no sentido de escolas de espiritualidade.  Na bíblia não se encontra certamente uma teoria a respeito da espiritualidade, mas os seus conteúdos estão ali presentes, principalmente em São Paulo. Encontramos reiteradamente o convite para viver como “homens espirituais”, (pneumatikói) (1Cor 2,13; Gl 6,1; Rm 8,9) a viver na santidade perfeita: espírito, alma e corpo (1Ts 5,23). Com Esta exortação, São Paulo pretendia sintetizar o estilo de vida do cristão. Esta vida devia ser entendida como vida dominada pelo Espírito do Ressuscitado, como vida de membros da Igreja.

 

                Este caminho traçado para a vida do cristão é, no fundo, o estatuto essencial da pessoa que crê. Por isso, falar de espiritualidade ou de experiência espiritual ou de vida espiritual, de caminhos do Espírito ou de caminho para a santidade e a perfeição, é falar da vida cristã que se desenvolve e consolida até a maturidade.

                Apareceram já nos séculos II e III as correntes que acentuavam a superioridade do espírito sobre os aspectos materiais do ser humano. Para estas correntes ser espiritual significa a desvinculação de tudo aquilo que é material e psíquico. Contra essa concepção extremista, Irineu de Lion (Século II) rebateu, dizendo que o homem todo (corpo e alma) entra na vida nova. “Todos aqueles que temem a Deus e crêem no evento de seu Filho e que, pela fé, fazem espaço em seu coração, ao Espírito de Deus, merecem ser chamados puros”, espirituais e vivos para Deus.

                Possuir o Espírito é, acima de tudo, saber ler as Escrituras e contemplar a mensagem profética  da vida que elas propõem (Clemente de Alexandria, Século III). Basílio de Cesaréia, (Século IV), no tratado sobre o Espírito Santo, diz: “o verdadeiro espiritual, não é aquele que exercita a inteligência para especular  a respeito de Deus, mas aquele que  é guiado pelo Espírito Santo. E o movimento principal do Espírito e conforme suas vida aos movimentos do Espírito. E o movimento principal do Espírito é a caridade,mais preciosa que a gnose (conhecimento), mais preciosa que a profecia e supera todos os carismas”.

II – Espiritualidade contemporânea: com ressonância do Vaticano II, especialmente do documento “Gaudium ET Spes”, optou-se para considerar a espiritualidade não como “fuga mundi” (fuga do mundo), mas como solidariedade, promoção humana, luta pela libertação, pela inculturação. Desse modo florescem não só as teologias, mas também as espiritualidades da libertação, da luta, da não violência, da esperança histórica, da ecologia, etc.

                No Brasil, a partir de 1980, os teólogos do IIIº mundo, reunidos em assembléia, respondem: “a espiritualidade que nós buscamos revitalizar, pretende enfatizar o amor de Deus que chama para seguir Jesus e que se revela no pobre. Na luta, no dom de si mesmo, no martírio do povo, Jesus é seguido até o sacrifício da cruz, mas também até a sua ressurreição libertadora. A espiritualidade que queremos fazer reviver faz da opção pelos pobres e pelos oprimidos uma experiência do Deus de Jesus Cristo. Isto exige de nós um constante êxodo do interior e uma mudança de caráter social e cultural. O êxodo aqui exigido é na direção de uma espiritualidade que uma maturidade pessoal e consciência coletiva, experiência individual do divino e dimensão interpessoal e social de transformação de si mesmos, sinais da Igreja e sinais do Reino, masculino e feminino com plenitude antropológica.

                Na caminhada da espiritualidade, há sempre os que, fugindo das decepções que esta caminhada comporta, se refugiam num mundo espiritual desvirtualizado, impregnados de sentimentos equívocos de misticismo e de experiências espirituais ou interiores. Estas ambiquidades deformam e esvaziam qualquer esforço de espiritualidade; deslizam com facilidade em desafogos orgiásticos e histéricos, carentes de qualquer legitimidade cristã autêntica. Isto não torna mais moderna e digna de crédito a espiritualidade, mas somente em almagamação e comercialização vulgar de autênticas expectativas de nossas contemporâneas.

                Na realidade, “a vida segundo o Espírito” cujo fruto é a santificação (Rm 6,22; Gl 5,22), suscita e exige de todos e de cada batizado em particular o seguimento e a imitação de Jesus Cristo, na acolhida de suas bem-aventuranças, na escuta e meditação da palavra de Deus, nas consciente e ativa participação na vida litúrgica e sacramental da Igreja, na oração individual, familiar e comunitária, na fome e sede de justiça, na prática do mandamento do amor, em todas as circunstâncias da vida, e no serviço aos irmãos, especialmente os pequenos, pobres e sofredores (Lc 16).

III - Espiritualidade do Batismo: o catecismo da Igreja católica define o Sacramento do Batismo, citando o papa Paulo VI na Constituição Apostólica “Divinae Consortium naturae” como: “Baptismus est sacramentum regenerationes per aquam in verbo” (Sacramento da regeneração pela água na palavra). O Batismo é portanto, o fundamento de toda a vida cristã; é a porta da vida no Espírito. É a porta que abre acesso aos demais sacramentos.

 

Pelo batismo somos regenerados como filhos de Deus, libertados do pecado, tornamo-nos membros de Cristo e somos à Igreja e participantes de sua missão (ef 4, 25; 1cor 12,13; Mt 28,19).

 

Resumindo, podemos dizer que a espiritualidade do Batismo consiste em viver, de modo consciente, as conseqüências reais e concretas do Batismo:

I)       Nascidos de novo no Espírito Santo, viver e irradiar a alegria de ser crsitão.

II)     Purificados dos pecados – viver sem nenhuma dependência do pecado.
III)  Adoção de “filhos de Deus”. Temos direito, como filhos, à herança do Pai: o Reino de Deus. Viver na esperança alegre do Reino do pai.
IV - Infusão das virtudes teologais. Ser testemunhas convincente da fé, da esperança, da caridade e dos setes dons do Espírito Santo.
V - Incorporação à Igreja. Participar com alegria, entusiasmo da missão da Igreja: “fazei todas as nações se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo quanto vos ordenei. Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos Séculos”.